FLASHES DE UMA VIDA
É bom
recordar! Reviver o passado! Rebuscar, nas gavetas da memória, o tempo que
passou!
Diante de
meus olhos cansados, ressurge, toda uma vida; e tudo vejo melhor ao cerrar as
pálpebras. Penso no passado que morreu, mas revive, anima-se, dentro de meu
peito.
Vejo-me
menininho, suspenso da mão morena de minha mãe, a percorrer o mercado
Vejo-me de
pasta de cabedal negro, caminhando sorumbático, para o liceu.
Vejo-me
encolhido, a mirar o Príncipe, e seus cabelos de oiro, rebrilhando ao doce sol
de serena manhã de Primavera, no recreio da escola. Hoje o Senhor Dom Duarte.
Vejo-me
adolescente, ouvindo aulas de Economia e Direito Comercial.
Vejo-me,
neste doce recordar, ao lado de minha mãe agonizante, no leito que lhe fora de
matrimónio. Estava ceguinha, e dores que não lhe davam descanso; e meu irmão,
médico, tentando reanimá-la:
- “ Não pode
morrer…É minha Mãe! …”
Vejo meu
pai, dias antes de falecer, enterrado numa poltrona, de cabeça baixa, proferindo
num ténue sussurro:
- “ Como
somos maus! …Como esquecemos que havemos de morrer!…”
Chega-me,
neste reconfortante recordar, vozes familiares: primos, tios, companheiros de
infância, que já partiram. Ecos ancestrais que incomodam e soam tristemente
dentro de mim.
Escorrem-me
lágrimas de saudade, ao lembrar-me daquela terna menina, que encontrei em casa
de seus pais. Com amizade e inocência cativou-me para sempre.
Seus olhos
castanhos, reluziam de pureza ao cruzarem-se com os meus.
Vejo-me
trajado a azul-escuro, gravata cinzenta clara, a entrar na igreja, no dia do
matrimónio; e sinto, como se agora fosse, a suave carícia de pétalas a
baterem-me no rosto risonho de felicidade
.
Escuto o
choro de minha filha, deitada no berço, que fora meu, e vejo o embalo carinhoso
da mãe, tentando adormecê-la.
Ouço
balbuciantes palavras, incertas e silabadas:
- “ Pa…pá! …Pa…pá! …”
Envelheci,
sem saber que envelheci. Vincaram-se sucos no rosto; descarnaram-se as mãos;
branqueou-se a cabeça; deformou-se o corpo; mas o espírito continuou jovem.
No coração, dorme, em sono eterno, a
criancinha, o adolescente, o homem adulto, que fui.
Sou jovem em
corpo envelhecido, e pequenas centelhas da vida entranharam-se e vivem dentro
de mim.
Meu pai,
minha mãe, meu irmão, vozes ancestrais, a menina de olhos castanhos, cujo nome
eram duas letras, O Príncipe, minha filha pequenina, todo o passado, aninhou-se
no coração, juntamente com vicissitudes, que escurentaram a existência.
Um dia
também morrerei, e essas vozes, essas personagens que “representaram” no palco
da minha vida, não passarão mais, como eu, de meras fotos amarelecidas! E os
provindouros, encolhendo os ombros, simplesmente dirão: antepassados…
…
Tudo
termina! Tudo será como não tivesse existido!
Tudo morre!
Tudo acaba! Tudo será pó!




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